
Orllan, o Último Saci, de J. A. R. (Dante) Ostemberg, destaca-se como uma obra de fantasia literária que reinventa o folclore brasileiro com profundidade filosófica, rigor histórico e vigor poético. Publicado em 2024, o romance insere-se no movimento contemporâneo de revisitação de mitos nacionais, mas amplia esse gesto ao recuperar a figura do Saci em sua origem trágica, africana e ancestral, muito distante da versão lúdica infantilizada que se popularizou no século XX. Ostemberg propõe uma narrativa que dialoga com questões de identidade, memória e espiritualidade, ao mesmo tempo em que revisita a história da escravidão, a violência colonial e a busca contemporânea por reconciliação cultural.
A obra apresenta a linhagem dos Sacis como um processo de transformação mítica que atravessa séculos. Tudo começa com Tuy, jovem Bantesi capturado, mutilado e escravizado no Brasil colonial, que renasce como o Primeiro Saci — não como uma criatura travessa, mas como uma entidade marcada por dor, resistência e ambiguidade moral. Ao lado dele surgem personagens que moldam sua formação emocional e simbólica: Castro, o fazendeiro que o acolhe; Nasty, guardiã de memória e afeto; Deriah, seu amor profundo; além da presença ancestral de Zê e Kleovvka. Dessa origem violenta e mística, a narrativa evolui para a criação de uma segunda linhagem, culminando no anúncio de Orllan, o Saci final, figura destinada a sintetizar e transcender toda a herança espiritual acumulada.
O romance desloca-se entre diferentes tempos e espaços — da África ancestral às matas brasileiras, das senzalas às paisagens metafísicas — articulando passado histórico, presente simbólico e futuro profético. A moita de bambu surge como espaço sagrado, ventre e portal, condensando a transição entre mundos. O tempo, por sua vez, é fragmentado, fluindo em ondas de memória, sonho e reflexão filosófica. Essa estrutura reforça a natureza híbrida da obra, que se move entre épico, ensaio e mito, convidando o leitor a habitar uma temporalidade ondulante e ritualística.
Estilisticamente, o autor faz uso de uma prosa densa, meditativa e musical, influenciada por Saramago, García Márquez e pelo realismo mágico latino-americano. As frases longas, as notas de rodapé ensaísticas e as metáforas recorrentes revelam um escritor interessado não apenas em contar uma história, mas em construir uma experiência estética de contemplação. A linguagem carrega ecos de oralidade africana, ressonâncias filosóficas europeias e uma profunda sensibilidade latino-americana, criando uma atmosfera em que mito, memória e crítica social se entrelaçam.
Tematicamente, a obra se estrutura sobre pilares fortes: ancestralidade africana, violência colonial, transformação espiritual e reinvenção do mito. Tuy, como Primeiro Saci, encarna o trauma histórico da escravidão, mas também o impulso vital de resistência e transcendência. Orllan, anunciado como o “Saci que virá”, encarna o futuro — não apenas do mito, mas da própria identidade brasileira, representando a possibilidade de síntese, reconciliação e renovação. Essa construção simbólica confere ao livro um caráter político e espiritual, evocando a necessidade contemporânea de cura coletiva.
Ostemberg amplia ainda mais o escopo ao conectar sua mitopoética à Rota Bioceânica, sugerindo que a integração continental, o diálogo intercultural e a sustentabilidade formam o pano de fundo simbólico do destino de Orllan. Assim, a obra ganha dimensão ecológica: a natureza não é cenário, mas personagem viva; o ambiente ferido reflete a mente humana fragmentada; o mito torna-se instrumento de reequilíbrio. O livro se converte, portanto, em manifesto literário pela convivência, pela união dos povos e pela restauração espiritual da relação homem-natureza.
Combinando profundidade conceitual, imaginação vigorosa e compromisso cultural, Orllan, o Último Saci renova o folclore brasileiro e projeta uma mitologia para o século XXI. Através de uma narrativa ambiciosa e sensível, Ostemberg devolve ao Saci sua força ancestral, expandindo-o como símbolo de resistência, memória e esperança. O anúncio de Orllan, ainda por vir, mantém o universo aberto e inseri a Figura do Consultor Internacional Orlando Silvestre Filho da Rota Bioceânica — como uma promessa de continuidade, cura e transcendência.

Deixe um comentário